O terceiro estado de ser
(um conto)

Faz três dias que não saio de casa. Não que esse número seja particularmente impressionante, visto que trabalho em regime home office; mas, ao mesmo tempo, meu estoque de biscoitos água e sal sabor gergelim da Piraquê estava acabando, e isso começava a me preocupar.
Caso racionasse a porção que possuía, conseguiria sobreviver mais um dia. Porém, um dia era pouco demais. Não me sentia bem com a ideia de morrer. A morte fictícia e territorial, provocada pelo meu sumiço de outros espaços, para ocupar somente a minha existência entre quatro paredes, era suficiente por agora.
Quer dizer, também havia morrido para outra realidade, um pouco mais moderna na sua existência particular: não estava respondendo o WhatsApp.
Mariana, a melhor amiga, havia mandado algumas mensagens de preocupação. Ela sabia que essa fase iria passar, então gostava de me deixar no banho-maria. A água seca, Mariana, eu dizia pra ela. Ao que ela respondia, não estou fazendo uma polenta, mas venho de tempos em tempos dar uma olhadinha.
Diego, o moleque com que havia transado nas últimas semanas, também havia entrado em contato. Provavelmente achou que duas semanas era suficiente para que eu voltasse a ter desejo por ele. Porém, ainda estava me recuperando da vontade súbita que teve na última vez de gozar em um vaso de plantas. Não posso deixar de concordar que sua exuberante costela-de-adão tinha um erotismo mais elevado que meu próprio busto humano.
Eu fingia que via, e reagia a tudo com um joinha.
A marca do novo século era o jaundice.
No meio de tudo, sempre vinham mensagens do trabalho. Fazia alguns anos que eu trabalhava como PM. Polícia Militar. Primeiro-Ministro. Prescrição Médica? Post Meridiem, se eu trabalhasse de noite. Banho-Maria, se estivesse doente, com o nariz repleto de ranho. Tinha abandonado a carreira de alguma coisa pra virar essa outra coisa, um pouco mais prestigiosa aos olhos daquele primo distante que invejava a liberdade de ser quem você sempre quis ser. No dia a dia, o trabalho consistia em tomar conta de tudo, o que não era muito estressante, gostava de controlar situações, de encontrar nelas a previsibilidade. As mensagens vinham e eu respondia no automático. Trancada em minha casa, respondia apenas mensagens de trabalho. Nada da minha própria alma estava lá.
A minha segunda opção de sobrevivência, um pouco drástica, mas menos drástica do que sair de casa para comprar biscoitos, era abrir a geladeira. Outra porta que me aguardava, já que a da frente era grande demais.
Geladeira, objeto que há anos contribui para a queda da disseminação de bactérias ou fungos no mundo. Vivia em minha casa como um animal. Quando eu dormia, ela emitia um ruído prolongado e ininterrupto, um som branco que guiava a formação dos meus sonhos REM, e também sonhava.
De tempos em tempos, soltava um tranco, um barulho mais alto, como se bufasse em protesto de estar sempre ligada. Estava cansada de existir, eu imaginava. Nenhum objeto em casa trabalhava tanto quanto a geladeira. Caso desligasse, não existia. Era como um cavalo de perna quebrada, que perdia sua existência caso não possuísse mais função. Entre uma geladeira desligada e um cavalo manco, também preferia estar morta. Mas estava viva e precisava comer.
Comi mais um biscoito. Estavam chegando ao fim.
Três dias que não saia de casa, três dias sem sequer abrir a geladeira.
Ela, funcionando, mantendo vivo o que é que fosse que estivesse lá dentro. Precisava abrir a geladeira, ver o que poderia cozinhar e me alimentar.
Na última sessão de terapia havia comentado que não queria mais sair de casa. A minha analista não me perguntou o porquê. Na outra sessão, antes dessa, dizia que estava bem como nunca antes estivesse. E, na outra, na anterior a essa, não me lembro muito bem, acho que fiquei discorrendo sobre como o vizinho tinha um cachorro que sempre latia quando eu passava. Imagino que já conhecia meu cheiro, mas latia mesmo assim. O exterior para ele era assustador, isso o deixava agressivo. O cachorro era branco, pequeno, tinha remelas nos olhos, cristalizadas. Ele saia de casa de coleira, me cheirava, cheirava, seu nome era Romeu. Gostava de mim. Entrava no seu apartamento e fechava a porta, eu passava e ele latia. Sou eu, Romeu. Julieta! Eu era Julieta, eu explicava pra minha analista, que não me perguntou o por quê.
Eu digitava mensagens de trabalho, enquanto pensava sobre geladeiras e pequenos cachorros brancos.
Esses eram os barulhos das minhas patinhas do lado de dentro.
Será que Romeu me ouvia? Será que sentia minha falta? Será que nos encontraríamos novamente? Será que eu conseguiria sair de casa? Será que, em pouco tempo, veria o mundo exterior com agressividade? Será que Mariana me visitaria? Será que eu latiria para Mariana ao sentir seu cheiro?
Só de pensar em tudo que havia dentro da geladeira começava a me corroer.
Eu via minha vida em cada ingrediente guardado por trás das suas portas pesadas de metal. Em cada prateleira, apodrecendo e congelando, um futuro deplorável acenava e piscava.
Um tomate murcho, bolorento, com pequenos micélios que cresciam do seu interior nutritivo, era um marido, forte, exuberante, que se deitaria em mim no fim do dia para que meu corpo pudesse relaxar da sua batalha diária contra a gravidade. Outro era a promoção para NYC, em que eu fingiria ter mais alma para que ela pudesse ter cheiro de maçã, outro era ser artista, abrir exposições em galerias com nomes de escritório de advogado, vestida toda de branco, em uma cerimônia legal do meu casamento com a arte. Outro, ainda, uma exuberante costela-de-adão.
A geladeira, mesmo ligada, não conseguia conter o crescimento da podridão.
Ao lado dos tomates, um queijo ganhava cor amarelada, batatas produziam um cheiro fétido, um iogurte explodia de bactérias.
Um bilhão de lactobacilos vivos. Eu estava viva.
Alguém no trabalho me mandava uma mensagem. Será que Diego ia sempre me mandar mensagem quando sentisse vontade de gozar em plantas?
Estava cansada de viver daquela forma, sem conseguir dizer o que queria ou o que buscava. Controlava os meus próprios desejos, repletos de culpa e maus sentimentos. Não importa o tomate que comesse, o resultado final seria um vômito purulento no chão do banheiro em plena terça-feira. Nada nunca estava bom. Não sabia quem eu era. Quem eu gostaria de ser. Eu já via o mundo exterior com agressividade. Habitava essas quatro paredes agora, mas amanhã já não sabia. Me limitava a esse espaço para ver se aqui, enclausurada, algo funcionava. Pra ver se sentia. Mas não sentia. Era uma pessoa sem personalidade, sem opinião, sem desenvoltura para enfrentar o mundo.
Estava olhando para a geladeira faz uma hora.
Me imaginava vivendo situações, uma conversa de bar, um encontro no banheiro feminino, uma troca com o porteiro, um carinho em Romeu, um jantar com Mariana. Tentava me conectar, mas não fazia parte. Tentava me esforçar, mas não levava a lugar nenhum. Era um humano corrompido. Não fazia perguntas. Não sabia articular um pensamento. Me acavalava, de novo e de novo. Me frustrava, porque não conseguia ser. Independente do que escolhesse, de que tomate comesse, a opção me traria desgosto. Me via em todos os lugares, e em lugar nenhum.
Principalmente, em lugar nenhum.
No fim, não me importava em ser tão insignificante quanto uma costela-de-adão.
Um ser sem carinho e afeto. Em que a mão do próximo chegava e me atravessava. Não queria ser percebida pelos outros. Não achava criminoso almejar não ser alguém, com nome e sobrenome. Pouco importaria se construísse uma vida repleta de vazios. Não era uma geladeira quebrada, nem um cavalo manco. Não era um PM, Romeu, ou, muito menos, Julieta. Nunca sonhei em ser.
No fim, não sonhava. Não possuía forma e, por isso, não me encaixava. É impossível conter aquilo que nunca houve contorno. O barulho da geladeira ecoava o que havia de mais mecânico em mim. Não vou abrir a geladeira porque sei que está vazia.
Comi mais um biscoito.
Agora, havia um biscoito de sobra.
Na próxima terapia, vou falar sobre o cavalo manco, sobre os tomates podres, sobre Romeu, novamente. No final da sessão, ela não vai perguntar o porquê. Mas não importa. Levantei do sofá. Chegou mais uma mensagem do trabalho. Digitei para Mariana.
Ei, meus biscoitos de água e sal estão acabando, poderia trazer mais pra mim? Gosto daqueles que são feitos com gergelim.
Ouço Romeu saindo de casa.

