Bezerro
(Ou, li autoficcão demais no recesso)
Pendurado no meu quarto tinha um quadro engraçado.
Quem entrava pela primeira vez logo fazia uma cara de espanto, e eu procurava motivo pra entender o susto. A pessoa apontava para o quadro em horror, enquanto eu já preparava o discurso:
— Ele tá morto!
— Não tá morto, só tá machucado.
— Tem muito sangue!
— Tá tudo bem, ele vai melhorar, tão cuidando dele.
— Por que você tem um quadro de um cachorro sofrendo?
— Não é um cachorro…
Faz algum tempo que eu não vejo esse quadro.
Da minha memória de agora, eu lembro de alguns aspectos: o bezerro branco deitado sobre a cama, seus olhos fechados, parte de sua cabeça sangrava, um sangue líquido e vermelho, pouco assustador, uma criança ajoelhada no chão ao seu lado, com o sangue em mãos, olhando o líquido escorrer, uma coberta na cama com listras intrinsicamente pintadas, uma a uma.
Não sei direito se o quadro nunca me incomodou ou se eu nunca prestei atenção nele.
De fato, é uma escolha um pouco estranha para se colocar em um quarto de uma criança de 8 anos. A verdade é que certos traços da imagem tinham um ar infantil, mesmo que o objeto fosse sinistro. Meus pais, ambos formados em artes plásticas, teriam conhecimento semiótico suficiente pra entender que a leveza do traço não transforma seu conteúdo em algo mais agradável. Mesmo assim, tomaram a decisão consciente de pendurar o bezerro sangrando sobre a minha cabeça ao dormir.
Será que achavam que eu tinha estômago pra sonhar com animais machucados?
Já jogavam em mim a maturidade de entender que a imagem em si não transmite a mensagem direta de sua projeção?
De certa forma, eu aprendi a decifrar aquele quadro. O animal não estava morto. O sangue não era abrasivo. E, principalmente, não era um cachorro. Como me irritava quem errava a espécie ali retratada! Defendia lealmente a ideia do animal ser o que talvez não fosse, seu rosto de fato era meio canino, mas bastava observar um pouco mais pra entender.
Preste atenção, cascos, o animal tinha cascos nos pés. Cachorros possuem patas.
Para cada espectador que entrava, eu me colocava na posição de um guia de museu. Defendia a minha leitura, impunha o meu significado. Aos poucos, as pessoas relaxavam. Dava pra ver no seu olhar uma certa desconfiança, mas relaxavam. Aceitavam, desistiam? Cediam ao novo sentido?
Teria eu cedido?
Faz uns 10 anos que não vejo o quadro.
Entre mudanças de casas, fui informada que ele está guardado em alguma caixa, talvez agora em um lugar mais seguro, menos assustador do que o olhar do outro.
Esses dias, ao passar por uma forte crise de insônia, minha analista me perguntou como os meus pais me colocavam pra dormir. Lembrava de deitarem ao meu lado, me contarem histórias, às vezes cediam ao cansaço criativo e ouvíamos um cd de contos japoneses.
Como espectadora das minhas memórias, entendia a cena, mas não colocava o quadro sob minha cabeça (estava ali).
Na casa da minha avó, haviam terços pendurados pela cama que guardavam o dormido dos perigos da noite. Em casa, o bezerro sangrando protegia meus sonhos com a sua forte insignificância (estava ali).
Enquanto pensava sobre o sono, o não-sono, o quadro estava ali.
Percebido por mim através do olhar do outro, eu me via dormindo, eu via o outro vendo o quadro, assustado. Deitado na cama (morto ou não-morto), dormindo na cama (sono ou não-sono).
Será que olhava pra mim dormindo da mesma forma que olhava para o quadro?
(“Não está dormindo, só está machucado", “Tá tudo bem, ela vai melhorar, tão cuidando dela").
Eu tentava e tentava justificar a minha insônia, como um guia num museu.
E a conclusão: o bezerro precisa morrer.


aguardo o update com a foto do quadro 👀